sábado, 28 de fevereiro de 2015

Petrobras e HSBC. Parcialidade Midiática?


Vimos nos últimos meses uma verdadeira enxurrada de notícias sobre corrupção na PETROBRAS, assunto que pautou, inclusive, as últimas eleições presidenciais. Entre vazamentos para a grande mídia e críticas de especialistas, não se trata de questionar a validade da Operação Lava Jato, mas o que é questionável aqui é o peso que a imprensa dá a um e a outros escândalos.
Para entender a questão, é necessário fazer uma retrospectiva: a PETROBRAS nasceu em 1953, no governo de Getúlio Vargas e representou, desde aquele momento, a afirmação nacionalista brasileira. A disputa trabalhismo versus entreguismo começou ali, entre Getúlio e Carlos Lacerda. Getúlio a defendeu, mas não a viu crescer, pois antes que a empresa completasse um ano, "saiu da vida e entrou para a história".
Com o passar do tempo, a empresa consolidou-se como uma fiadora do desenvolvimento tecnológico brasileiro, tanto em pesquisa e desenvolvimento tecnológico de exploração petrolífera, quanto de abonar recursos para investimento público. Durante o governo de FHC (1995-2003), por pouco não foi privatizada, como já acontecera com a VALE (Companhia Vale do Rio Doce), outra gigante criada por Getúlio, e a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional, também criada pelo presidente Vargas), que fora privatizada ainda no governo Itamar Franco (1992-1994). No governo Lula, a petroleira conseguiu diversos feitos, um deles, a descoberta de petróleo na camada pré-Sal. Endividou-se para conseguir a tecnologia necessária à exploração, mas por outro lado, com a Política de Conteúdo Nacional, que obriga as empresas exploradoras de petróleo a adquirir pelo menos 60% de materiais brasileiros, fortaleceu a indústria nacional e revitalizou a quase falida indústria naval brasileira, visto que passou a encomendar navios para a exploração.
Mas nem tudo são boas notícias. A Operação Lava Jato desvendou um grande esquema de pagamento de propinas, exigidas por diretores da empresa a subsidiárias da mesma.
É complicado falar em culpa, visto que a Operação está em fase de investigação e os possíveis culpados ainda não foram julgados. Portanto, até que se prove, todos são inocentes, embora alguns indícios tenha levado supostos envolvidos para a cadeia por questão preventiva. Mas, apesar de ainda não ter sido julgado, na mídia, o governo aparece como o único culpado pela corrupção na petrolífera: pedidos de impeachment por partidos e por manifestantes tem se tornado corriqueiros neste início de segundo mandato da presidente Dilma. Os reclamantes a acusam por ter sido presidente do Conselho de Administração da empresa e depois, presidente da República e alegam que não é possível que os casos de propina não fossem de conhecimento da mandatária. O TCU (Tribunal de Contas da União) a inocentou de culpa na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pelo qual a Oposição procura também culpar a presidente pelo negócio, que teve prejuízo de aproximadamente U$S 1 bi.
Voltando às investigações, um dos delatores afirmou receber propina desde 1997, portanto desde o primeiro governo de FHC, mas quando se trata no assunto de corrupção na petrolífera a culpa parece cair apenas sobre o governo atual, como se antes de 2003 não existisse corrupção, não só na PETROBRAS, como também em todo o país.
Voltando a questão da parcialidade da mídia sobre o assunto, é conveniente lembrar que, em 1989, o jornalista Ricardo Boechat, atualmente no Grupo Bandeirantes, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com uma matéria sobre corrupção na estatal, intitulada "O Caso BR", mas naquele momento nada foi apurado judicialmente. Em 1996, o jornalista Paulo Francis disse no programa Manhatan Connection: "Os diretores da Petrobras põem dinheiro na Suíça. Roubam em superfaturamento e subfaturamento. Constituem a maior quadrilha que já atuou no Brasil." A fala rendeu um processo ao jornalista. Agora, Pedro Barusco, ex-diretor da estatal confirma que recebia propina desde o primeiro   governo FHC.
Neste caso, a mídia não divulgou. Há algumas semanas vazou para jornalistas, um e-mail da diretora da Central Globo de Jornalismo, Silvia Faria, com os dizeres: "Tirar trecho que menciona FHC nos VTs sobre Lava a Jato (...) revisem os VTs com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique". Tal situação reflete a falta de decência da mídia tradicional, que encobre a quem lhe aprouver e condena a quem quiser, tal como aconteceu no episódio do Mensalão, com o ex-secretário Luis Gushiken: acusado de corrupção, foi fustigado na imprensa por 7 anos, mas foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal - STF por falta de provas. Um ano depois acabou morrendo em decorrência de um câncer intestinal.
Outro caso que vem mexendo com a cena política brasileira foi a descoberta por uma comunidade internacional de jornalistas, a ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), do que vem sendo chamado de "SwissLeak". Milhares de contas secretas no HSBC suíço, com dinheiro provavelmente oriundo de sonegação de impostos de vários países, entre eles, o Brasil, com mais de 8 mil contas. Há suspeitas de que brasileiros tenham desviado ao menos R$ 20 bi. Apesar do destaque internacional, a Globo fez apenas breve menção ao escândalo em seu principal telejornal, provavelmente por ser o banco um dos patrocinadores do JN. Chamou a atenção o fato de que, quando o senador Randolfe Rodrigues (Psol - AP) anunciou a abertura da CPI para investigar o caso, não estava lá nenhum repórter da Globo. Procurados para assinar a CPI, nenhum dos senadores do principal partido de oposição, o PSDB, assinou.
O Senador Randolfe anuncia a CPI. Cadê o microfone da Globo?
(Foto: Agência Senado)
Casos como estes me fazem refletir e pensar sobre o que é o papel do jornalista: será mesmo valioso estudar tanto para depois se submeter a noticiar apenas o que os donos dos veículos querem? Não é a toa que, juntando a crise ética e os novos meios de comunicação, a velha mídia esteja em decadência: a VEJA em crise, o JN a cada ano perde mais expectadores, os jornais impressos estão com o fim decretado.




Fontes:
1. Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=Q_nuXnu9ftk (Paulo Francis no Manhatan Connection).
2. Diretora da Globo ordena que se tire o nome de FHC de VTs sobre a Lava Jato - http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/169457/Globo-blinda-FHC-no-notici%C3%A1rio-da-Lava-Jato.htm
3. Luiz Gushiken - A crônica de uma injustiça - http://cartamaior.com.br/?/Opiniao/Mensalao-e-Luiz-Gushiken-A-cronica-de-uma-injustica/26902
4. A breve nota do JN sobre o HSBC - http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/02/contas-de-brasileiros-do-hsbc-na-suica-serao-investigadas-pela-pf.html
5. Silêncio da imprensa sobre HSBC - http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-assombroso-silencio-no-brasil-em-torno-do-escandalo-hsbc/
6. Imagem: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/02/procura-se-o-microfone-da-tv-globo.html
7. Queda da VEJA - http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/05/queda-de-lucros-e-crise-da-veja.html
8. Queda dos jornais impressos - http://www.conversaafiada.com.br/pig/2013/04/05/o-estadao-se-prepara-para-fechar-ja-vai-tarde/
9. O montante de dinheiro desviado no SwissLeak - http://www.ebc.com.br/noticias/2015/02/swiss-leaks-entenda-fraude-fiscal-no-hsbc
10. Jornalista Paulo Francis processado por denunciar corrupção na Petrobras - http://justificando.com/2014/09/23/justica-paulo-francis-ainda-que-tardia/
11. Ex-Gerente afirma receber propina desde 1997 - http://www.cartacapital.com.br/politica/ex-gerente-da-petrobras-afirma-receber-propina-desde-1997-7713.html
12. . crescimento da Petrobras nos últimos governos - http://economia.terra.com.br/noticias/noticia.aspx?idNoticia=201102281852_TRR_79551422 e 
13. http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/petrobras-crescimento-medido-por-varios-indicadores.htm

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

* Homossexualismo ou Homossexualidade? Implicações Ideológicas do Uso dos Termos


*Artigo apresentado na disciplina de Português II - Professor Emanoel Pedro (Jornalismo INTA).

O objetivo, ao escrever este artigo, é discutir as opiniões nas entrelinhas de grupos diversos que usam o termo “homossexualismo” ou “homossexualidade” para se referir à prática sexual entre pessoas do mesmo sexo. Antes, porém, é preciso analisar o que cada um destes termos carrega de significados ideológicos.
Primeiro, alguns dicionários, como o “Michaelis”¹ dizem que os termos são sinônimos. Entretanto, segundo Arlete Gravanic, “homossexualismo” carrega significados pejorativos, como se a prática sexual de pessoas do mesmo sexo fosse doença ou desvio de conduta (o sufixo “ismo” remete a patologia).  Já a palavra “homossexualidade” traz em si o significado do respeito à individualidade, à sexualidade de cada um.
Mas, como a imprensa, as religiões, os partidos políticos e outras instituições tratam a questão? Que nomenclatura usam? Que ideologias estão implícitas neste processo? Vejamos.
A revista VEJA, um dos órgãos de imprensa mais conservadores do país, recentemente, lançou textos muito criticados, nos quais reforça questões preconceituosas acerca dos homossexuais. Segundo o site “Pragmatismo Político”, a revista “defende a tese eugenista de que a homossexualidade não existe e que há uma ‘perigosa’ propaganda LGBT”².

As Religiões
O Espiritismo, além de usar o termo “homossexualidade” não rejeita as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Chico Xavier, o maior líder espírita brasileiro disse:

Não vejo pessoalmente qualquer motivo para críticas destrutivas e sarcasmos incompreensíveis para com nossos irmãos e irmãs portadores de tendências homossexuais, a nosso ver, claramente iguais às tendências heterossexuais que assinalam a maioria das criaturas humanas. Em minhas noções de dignidade do espírito, não consigo entender porque razão esse ou aquele preconceito social impediria certo número de pessoas de trabalhar e de serem úteis à vida comunitária, unicamente pelo fato de haverem trazido do berço características psicológicas e fisiológicas diferentes da maioria. (...) (Jornal Folha Espírita, março de 1984).
A Igreja Católica, mais conservadora não aceita as relações homossexuais. No Sínodo, que aconteceu agora no mês de outubro, o Papa Francisco tentou avançar em algumas posições, como o apoio aos homossexuais, mas a rejeição ao apelo por parte [1]dos cardeais conservadores foi maior. O documento do Sínodo acabou não contemplando a questão³. Em texto recente, Dom Eugênio Sales usou o termo “homossexualismo” (“A Igreja e o Homossexualismo”).[2]
Algumas das Igrejas evangélicas tratam o tema com certo furor: é o caso dos pastores Silas Malafaia e do Deputado Pastor Marco Feliciano. Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, recentemente afirmou que “homossexualismo é questão de comportamento”. Diz o texto do site “Gospel Mais”:
Além de ser um líder religioso, Malafaia é psicólogo e fala com dados científicos a respeito do tema dizendo que por não ser uma condição genética, a prática homossexual pode sim ser desaprendida. (...) o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo explica que a ordem cromossômica só determina se a pessoa será macho ou fêmea, se for XY será um homem, XX será mulher. ¹
Já um pastor do grupo do deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) comparou o “homossexualismo” ao adultério e outros pecados: (...) comparou o homossexualismo com o adultério, a prostituição e a pedofilia em termos de pecado, segundo interpretação da Bíblia Sagrada (...)”².
A Umbanda considera o “homossexualismo” como “um fenômeno da natureza humana com ramificações na espiritualidade” ³. Apesar de usar variadas vezes o termo “homossexualismo” ou “homossexualidade”, na sua pregação há sinais de que respeitam a opção sexual de cada um.
Entre as orientações políticas, pode-se afirmar que, as que estão mais à esquerda tratam os homossexuais como sujeitos de direito, enquanto as bancadas conservadoras visam a restrição desses direitos. Atualmente, PSOL e setores do PT são a favor de políticas sociais de combate à homofobia e à equiparação das uniões homoafetivas ao casamento civil. Entretanto, a Frente Parlamentar Evangélica (formada por partidos como o PSC, de Feliciano) e partidos com quem o PT fez alianças no governo têm sido combativos acerca do assunto. Segundo SANTOS:
Desde o fim da década de 1970, diversos ativistas homossexuais militavam em grupos partidários e muitos deles contribuíram, por exemplo, para a fundação do PT em 1980. Todavia, a relação entre o movimento homossexual com estas organizações partidárias tem sido caracterizada por diversas tensões e conflitos. (SANTOS, p. 2)
Um dos maiores representantes do conservadorismo brasileiro, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ), militar da reserva, é claramente um dos maiores combatentes das propostas que visam garantir direitos dos homossexuais. No mesmo dia em que um pai matou o filho de 8 anos por causa de hábitos femininos da criança, Bolsonaro disse que “ter filho gay é falta de porrada”. O site “Pragmatismo Político” lembrou que pessoas que incentivam estes tipos de atos estão no Congresso Nacional.
Em pleno século XXI, um dos maiores desafios da sociedade brasileira é crescer no respeito às diferenças. A análise da linguagem tem muito a nos dizer sobre isto: as palavras que se usam para denominar a prática sexual de pessoas do mesmo sexo podem degenerar (homossexualismo) ou respeitar a identidade de cada um (homossexualidade). A reflexão que precisamos fazer é: se é tão difícil utilizar o termo adequado, quanto mais é empregar o respeito às diferenças.
Segundo Bakhtin, os signos ideológicos surgem nas interações sociais a partir das consciências individuais¹. Se grupos políticos intolerantes atraem consciências individuais para o seu projeto é porque as suas ideologias encontram afinco na sociedade. Com mais conservadores nas casas legislativas não avançamos nas leis. Se não avançamos nas leis, parcelas da população permanecerão discriminadas. E se muitos representantes políticos se negam a usar um simples termo que incluiria mais respeito com a identidade sexual de cada um, muito menos se disporão a lutar pelo fim do preconceito. Como disse Einstein: “Época triste é a nossa em que é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”.


Bibliografia
GAVRANIC, Arlete. Diferença entre homossexualismo e homossexualidade. Disponível em http://www2.uol.com.br/vyaestelar/homossexualidade.htm Acesso em 23 out. 2014 às 00:49.
SALES, Eugênio de Araújo. A igreja e o homossexualismo. Disponível em http://www.veritatis.com.br/doutrina/doutrina-moral/8447-a-igreja-e-o-homossexualismo Acesso em 23 out. 2014 às 01:02.
SANTOS, Gustavo Gomes da Costa. Movimento LGBT e Partidos Políticos no Brasil. Disponível em http://www.ifch.unicamp.br/informacoes/arq_eventos_noticias/Q516_Paper_Partidos%20Pol%C3%ADticos%20e%20o%20movimento%20LGBT_Gustavo%20Gomes%20da%20Costa.pdf  Acesso em 23 out. 2014 às 11:38.






 Ligações externas:

¹ Cf. http://noticias.gospelprime.com.br/homossexualismo-comportamento-silas-malafaia/
² Cf. http://www.hipernoticias.com.br/TNX/imprime.php?cid=24972&sid=112
³ Cf. http://paijoelsantos.blogspot.com.br/2011/02/como-umbanda-encara-homossexualidade.html
¹ Ver BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. HUCITEC, São Paulo: 1981.
[1] Cf. http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=homossexualidade
³ Cf. http://www.maranathario.com/index.php?pg=noticia2&id=925

Apresentação

O blogueiro, em visita técnica ao Sistema
Verdes Mares (Fortaleza/CE, novembro
de 2014).
Olá! Sou Marcos Araújo, acadêmico do curso de Jornalismo das Faculdades INTA. Sou blogueiro há 07 anos e escrevo poesias. Tenho uma antologia poética e também já escrevi uma biografia. Gosto muito da área de história genealógica e pretendo desenvolver algum projeto sobre o tema, futuramente.

Neste blog, meu objetivo é postar textos opinativos sobre temas diversos: política, economia, sociedade, educação, cultura e outros, de acordo com a demanda. Desejo contribuir com as discussões da atualidade e terei prazer em travar bons duelos pela construção do conhecimento. Assim sendo, desejo aos meus leitores uma agradável leitura e que vocês possam voltar outras vezes. Aproveito a ocasião para sugerir uma visita à aba "Galeria de Audiovisual", onde vocês encontrarão documentários, entrevistas e outros documentos importantes sobre temas diversos.

Este trabalho será contado como Avaliação Parcial da Disciplina de Redação Jornalística II (3º Período - Professor Diego).

Atenciosamente, 

O Blogueiro.