*Artigo apresentado na disciplina de Português II - Professor Emanoel Pedro (Jornalismo INTA).
O objetivo, ao escrever este artigo, é
discutir as opiniões nas entrelinhas de grupos diversos que usam o termo
“homossexualismo” ou “homossexualidade” para se referir à prática sexual entre
pessoas do mesmo sexo. Antes, porém, é preciso analisar o que cada um destes
termos carrega de significados ideológicos.
Primeiro, alguns dicionários, como o
“Michaelis”¹ dizem que os termos são sinônimos. Entretanto, segundo Arlete
Gravanic, “homossexualismo” carrega significados pejorativos, como se a prática
sexual de pessoas do mesmo sexo fosse doença ou desvio de conduta (o sufixo
“ismo” remete a patologia). Já a palavra
“homossexualidade” traz em si o significado do respeito à individualidade, à
sexualidade de cada um.
Mas, como a imprensa, as religiões, os
partidos políticos e outras instituições tratam a questão? Que nomenclatura
usam? Que ideologias estão implícitas neste processo? Vejamos.
A revista VEJA, um dos órgãos de
imprensa mais conservadores do país, recentemente, lançou textos muito
criticados, nos quais reforça questões preconceituosas acerca dos homossexuais.
Segundo o site “Pragmatismo Político”, a revista “defende a tese eugenista de
que a homossexualidade não existe e que há uma ‘perigosa’ propaganda LGBT”².
As Religiões
O Espiritismo, além de usar o termo
“homossexualidade” não rejeita as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo.
Chico Xavier, o maior líder espírita brasileiro disse:
Não vejo pessoalmente qualquer motivo para críticas destrutivas e
sarcasmos incompreensíveis para com nossos irmãos e irmãs portadores de
tendências homossexuais, a nosso ver, claramente iguais às tendências
heterossexuais que assinalam a maioria das criaturas humanas. Em minhas noções
de dignidade do espírito, não consigo entender porque razão esse ou aquele
preconceito social impediria certo número de pessoas de trabalhar e de serem
úteis à vida comunitária, unicamente pelo fato de haverem trazido do berço
características psicológicas e fisiológicas diferentes da maioria. (...) (Jornal
Folha Espírita, março de 1984).
A Igreja
Católica, mais conservadora não aceita as relações homossexuais. No Sínodo, que
aconteceu agora no mês de outubro, o Papa Francisco tentou avançar em algumas
posições, como o apoio aos homossexuais, mas a rejeição ao apelo por parte [1]dos
cardeais conservadores foi maior. O documento do Sínodo acabou não contemplando
a questão³. Em texto recente, Dom Eugênio Sales usou o termo “homossexualismo”
(“A Igreja e o Homossexualismo”).[2]
Algumas
das Igrejas evangélicas tratam o tema com certo furor: é o caso dos pastores
Silas Malafaia e do Deputado Pastor Marco Feliciano. Silas Malafaia, da
Assembleia de Deus Vitória em Cristo, recentemente afirmou que “homossexualismo
é questão de comportamento”. Diz o texto do site “Gospel Mais”:
Além de ser um líder religioso, Malafaia é psicólogo
e fala com dados científicos a respeito do tema dizendo que por não ser uma
condição genética, a prática homossexual pode sim ser desaprendida. (...) o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo
explica que a ordem cromossômica só determina se a pessoa será macho ou fêmea,
se for XY será um homem, XX será mulher. ¹
Já um pastor do grupo do deputado Pastor
Marco Feliciano (PSC-SP) comparou o “homossexualismo” ao adultério e outros
pecados: “(...) comparou o homossexualismo com o adultério, a
prostituição e a pedofilia em termos de pecado, segundo interpretação da Bíblia
Sagrada (...)”².
A Umbanda considera o “homossexualismo”
como “um fenômeno da natureza humana com ramificações na espiritualidade” ³.
Apesar de usar variadas vezes o termo “homossexualismo” ou “homossexualidade”,
na sua pregação há sinais de que respeitam a opção sexual de cada um.
Entre as orientações políticas, pode-se
afirmar que, as que estão mais à esquerda tratam os homossexuais como sujeitos
de direito, enquanto as bancadas conservadoras visam a restrição desses
direitos. Atualmente, PSOL e setores do PT são a favor de políticas sociais de
combate à homofobia e à equiparação das uniões homoafetivas ao casamento civil.
Entretanto, a Frente Parlamentar Evangélica (formada por partidos como o PSC,
de Feliciano) e partidos com quem o PT fez alianças no governo têm sido
combativos acerca do assunto. Segundo SANTOS:
Desde o fim da década de 1970, diversos ativistas
homossexuais militavam em grupos partidários e muitos deles contribuíram, por
exemplo, para a fundação do PT em 1980. Todavia, a relação entre o movimento homossexual
com estas organizações partidárias tem sido caracterizada por diversas tensões
e conflitos. (SANTOS, p. 2)
Um dos maiores representantes do
conservadorismo brasileiro, o deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ), militar
da reserva, é claramente um dos maiores combatentes das propostas que visam
garantir direitos dos homossexuais. No mesmo dia em que um pai matou o filho de
8 anos por causa de hábitos femininos da criança, Bolsonaro disse que “ter
filho gay é falta de porrada”. O site “Pragmatismo Político” lembrou que pessoas
que incentivam estes tipos de atos estão no Congresso Nacional.
Em pleno século XXI, um dos maiores
desafios da sociedade brasileira é crescer no respeito às diferenças. A análise
da linguagem tem muito a nos dizer sobre isto: as palavras que se usam para
denominar a prática sexual de pessoas do mesmo sexo podem degenerar
(homossexualismo) ou respeitar a identidade de cada um (homossexualidade). A
reflexão que precisamos fazer é: se é tão difícil utilizar o termo adequado, quanto
mais é empregar o respeito às diferenças.
Segundo Bakhtin, os signos ideológicos
surgem nas interações sociais a partir das consciências individuais¹. Se grupos
políticos intolerantes atraem consciências individuais para o seu projeto é
porque as suas ideologias encontram afinco na sociedade. Com mais conservadores
nas casas legislativas não avançamos nas leis. Se não avançamos nas leis,
parcelas da população permanecerão discriminadas. E se muitos representantes
políticos se negam a usar um simples termo que incluiria mais respeito com a
identidade sexual de cada um, muito menos se disporão a lutar pelo fim do preconceito. Como disse Einstein: “Época triste é
a nossa em que é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”.
Bibliografia
GAVRANIC,
Arlete. Diferença entre homossexualismo e
homossexualidade. Disponível em http://www2.uol.com.br/vyaestelar/homossexualidade.htm
Acesso em 23 out. 2014 às 00:49.
SALES,
Eugênio de Araújo. A igreja e o
homossexualismo. Disponível em http://www.veritatis.com.br/doutrina/doutrina-moral/8447-a-igreja-e-o-homossexualismo
Acesso em 23 out. 2014 às 01:02.
SANTOS,
Gustavo Gomes da Costa. Movimento LGBT e
Partidos Políticos no Brasil. Disponível em http://www.ifch.unicamp.br/informacoes/arq_eventos_noticias/Q516_Paper_Partidos%20Pol%C3%ADticos%20e%20o%20movimento%20LGBT_Gustavo%20Gomes%20da%20Costa.pdf
Acesso em 23 out. 2014 às 11:38.
² Cf. http://www.hipernoticias.com.br/TNX/imprime.php?cid=24972&sid=112
³ Cf. http://paijoelsantos.blogspot.com.br/2011/02/como-umbanda-encara-homossexualidade.html
¹ Ver BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. HUCITEC, São Paulo: 1981.
²Cf. http://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/06/revista-veja-diz-que-homossexualidade-nao-existe.html
³ Cf. http://www.maranathario.com/index.php?pg=noticia2&id=925

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