Vimos nos últimos meses uma verdadeira enxurrada de notícias sobre corrupção na PETROBRAS, assunto que pautou, inclusive, as últimas eleições presidenciais. Entre vazamentos para a grande mídia e críticas de especialistas, não se trata de questionar a validade da Operação Lava Jato, mas o que é questionável aqui é o peso que a imprensa dá a um e a outros escândalos.
Para entender a questão, é necessário fazer uma retrospectiva: a PETROBRAS nasceu em 1953, no governo de Getúlio Vargas e representou, desde aquele momento, a afirmação nacionalista brasileira. A disputa trabalhismo versus entreguismo começou ali, entre Getúlio e Carlos Lacerda. Getúlio a defendeu, mas não a viu crescer, pois antes que a empresa completasse um ano, "saiu da vida e entrou para a história".
Com o passar do tempo, a empresa consolidou-se como uma fiadora do desenvolvimento tecnológico brasileiro, tanto em pesquisa e desenvolvimento tecnológico de exploração petrolífera, quanto de abonar recursos para investimento público. Durante o governo de FHC (1995-2003), por pouco não foi privatizada, como já acontecera com a VALE (Companhia Vale do Rio Doce), outra gigante criada por Getúlio, e a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional, também criada pelo presidente Vargas), que fora privatizada ainda no governo Itamar Franco (1992-1994). No governo Lula, a petroleira conseguiu diversos feitos, um deles, a descoberta de petróleo na camada pré-Sal. Endividou-se para conseguir a tecnologia necessária à exploração, mas por outro lado, com a Política de Conteúdo Nacional, que obriga as empresas exploradoras de petróleo a adquirir pelo menos 60% de materiais brasileiros, fortaleceu a indústria nacional e revitalizou a quase falida indústria naval brasileira, visto que passou a encomendar navios para a exploração.
Mas nem tudo são boas notícias. A Operação Lava Jato desvendou um grande esquema de pagamento de propinas, exigidas por diretores da empresa a subsidiárias da mesma.
É complicado falar em culpa, visto que a Operação está em fase de investigação e os possíveis culpados ainda não foram julgados. Portanto, até que se prove, todos são inocentes, embora alguns indícios tenha levado supostos envolvidos para a cadeia por questão preventiva. Mas, apesar de ainda não ter sido julgado, na mídia, o governo aparece como o único culpado pela corrupção na petrolífera: pedidos de impeachment por partidos e por manifestantes tem se tornado corriqueiros neste início de segundo mandato da presidente Dilma. Os reclamantes a acusam por ter sido presidente do Conselho de Administração da empresa e depois, presidente da República e alegam que não é possível que os casos de propina não fossem de conhecimento da mandatária. O TCU (Tribunal de Contas da União) a inocentou de culpa na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pelo qual a Oposição procura também culpar a presidente pelo negócio, que teve prejuízo de aproximadamente U$S 1 bi.
Voltando às investigações, um dos delatores afirmou receber propina desde 1997, portanto desde o primeiro governo de FHC, mas quando se trata no assunto de corrupção na petrolífera a culpa parece cair apenas sobre o governo atual, como se antes de 2003 não existisse corrupção, não só na PETROBRAS, como também em todo o país.
Voltando a questão da parcialidade da mídia sobre o assunto, é conveniente lembrar que, em 1989, o jornalista Ricardo Boechat, atualmente no Grupo Bandeirantes, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com uma matéria sobre corrupção na estatal, intitulada "O Caso BR", mas naquele momento nada foi apurado judicialmente. Em 1996, o jornalista Paulo Francis disse no programa Manhatan Connection: "Os diretores da Petrobras põem dinheiro na Suíça. Roubam em superfaturamento e subfaturamento. Constituem a maior quadrilha que já atuou no Brasil." A fala rendeu um processo ao jornalista. Agora, Pedro Barusco, ex-diretor da estatal confirma que recebia propina desde o primeiro governo FHC.
Neste caso, a mídia não divulgou. Há algumas semanas vazou para jornalistas, um e-mail da diretora da Central Globo de Jornalismo, Silvia Faria, com os dizeres: "Tirar trecho que menciona FHC nos VTs sobre Lava a Jato (...) revisem os VTs com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique". Tal situação reflete a falta de decência da mídia tradicional, que encobre a quem lhe aprouver e condena a quem quiser, tal como aconteceu no episódio do Mensalão, com o ex-secretário Luis Gushiken: acusado de corrupção, foi fustigado na imprensa por 7 anos, mas foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal - STF por falta de provas. Um ano depois acabou morrendo em decorrência de um câncer intestinal.
Outro caso que vem mexendo com a cena política brasileira foi a descoberta por uma comunidade internacional de jornalistas, a ICIJ (Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos), do que vem sendo chamado de "SwissLeak". Milhares de contas secretas no HSBC suíço, com dinheiro provavelmente oriundo de sonegação de impostos de vários países, entre eles, o Brasil, com mais de 8 mil contas. Há suspeitas de que brasileiros tenham desviado ao menos R$ 20 bi. Apesar do destaque internacional, a Globo fez apenas breve menção ao escândalo em seu principal telejornal, provavelmente por ser o banco um dos patrocinadores do JN. Chamou a atenção o fato de que, quando o senador Randolfe Rodrigues (Psol - AP) anunciou a abertura da CPI para investigar o caso, não estava lá nenhum repórter da Globo. Procurados para assinar a CPI, nenhum dos senadores do principal partido de oposição, o PSDB, assinou.
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O Senador Randolfe anuncia a CPI. Cadê o microfone da Globo?
(Foto: Agência Senado) |
Casos como estes me fazem refletir e pensar sobre o que é o papel do jornalista: será mesmo valioso estudar tanto para depois se submeter a noticiar apenas o que os donos dos veículos querem? Não é a toa que, juntando a crise ética e os novos meios de comunicação, a velha mídia esteja em decadência: a VEJA em crise, o JN a cada ano perde mais expectadores, os jornais impressos estão com o fim decretado.
Fontes:
1. Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=Q_nuXnu9ftk (Paulo Francis no Manhatan Connection).
2. Diretora da Globo ordena que se tire o nome de FHC de VTs sobre a Lava Jato - http://www.brasil247.com/pt/247/midiatech/169457/Globo-blinda-FHC-no-notici%C3%A1rio-da-Lava-Jato.htm
3. Luiz Gushiken - A crônica de uma injustiça - http://cartamaior.com.br/?/Opiniao/Mensalao-e-Luiz-Gushiken-A-cronica-de-uma-injustica/26902
4. A breve nota do JN sobre o HSBC - http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2015/02/contas-de-brasileiros-do-hsbc-na-suica-serao-investigadas-pela-pf.html
5. Silêncio da imprensa sobre HSBC - http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-assombroso-silencio-no-brasil-em-torno-do-escandalo-hsbc/
6. Imagem: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2015/02/procura-se-o-microfone-da-tv-globo.html
7. Queda da VEJA - http://altamiroborges.blogspot.com.br/2013/05/queda-de-lucros-e-crise-da-veja.html
8. Queda dos jornais impressos - http://www.conversaafiada.com.br/pig/2013/04/05/o-estadao-se-prepara-para-fechar-ja-vai-tarde/
9. O montante de dinheiro desviado no SwissLeak - http://www.ebc.com.br/noticias/2015/02/swiss-leaks-entenda-fraude-fiscal-no-hsbc
10. Jornalista Paulo Francis processado por denunciar corrupção na Petrobras - http://justificando.com/2014/09/23/justica-paulo-francis-ainda-que-tardia/
11. Ex-Gerente afirma receber propina desde 1997 - http://www.cartacapital.com.br/politica/ex-gerente-da-petrobras-afirma-receber-propina-desde-1997-7713.html
12. . crescimento da Petrobras nos últimos governos - http://economia.terra.com.br/noticias/noticia.aspx?idNoticia=201102281852_TRR_79551422 e
13. http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/petrobras-crescimento-medido-por-varios-indicadores.htm