Na
semana passada, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) conseguiu aprovar uma emenda aglutinativa que permite o
financiamento privado de campanhas, sendo que na noite anterior, uma proposta
com igual teor já havia sido rejeitada. A manobra de Cunha, segundo o ministro
do STF marco Aurélio Mello, não tem valor legal, visto que viola a própria
Constituição, art. 60, que diz que uma emenda não pode ser pautada na mesma
sessão, já tendo sido derrotada uma vez. PSOL, PC do B e PT entraram com uma
ação no STF que pede a anulação da sessão, por ser inconstitucional: a ministra
Rosa Weber deu 48 horas para que Cunha explique-se.
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| Espelho do site do Senado. Art. 60, £ 5º, violado por Eduardo Cunha. |
É
bem visível que as nossas instituições republicanas estão carecendo de
credibilidade: a corrupção é um mal fisiológico, tanto quanto a estrutura dos
nossos partidos políticos e, pior, dos nossos políticos. Neste caso, Judiciário
e Legislativo parecem mancomunar-se contra o povo brasileiro. Vejamos.
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| Do Portal CTB. Gilmar "sentou" em cima da ADI. |
O
Brasil ganhou notoriedade nos últimos anos: conseguiu reduzir as desigualdades
sociais, sendo reconhecido internacionalmente por conseguir reduzir a miséria,
a fome e a mortalidade infantil, aumentou o nível do emprego e facilitou o
acesso ao nível superior (criando 18 novas universidades federais, o PROUNI e
expandindo o FIES). Mas como poderemos ser um país melhor com o vício das
nossas instituições?
Sobre
o ministro Gilmar, é impossível não lembrar de Dalmo Dallari, cada vez que o
vejo prejudicar o povo brasileiro, através de suas ações. Em 2002, logo que
rumores indicaram que Fernando Henrique Cardoso indicaria o Advogado-Geral da
União para ministro do STF, o professor Dallari – que concorreu com Gilmar a
indicação e, infelizmente, perdeu – escreveu um artigo na Folha de São Paulo
intitulado “Degradação do Judiciário”, no qual alertava para o sério risco que
corria o Estado Democrático de Direito, naquela situação prestes a se
confirmar. Dallari tinha toda razão: quando leio este artigo, tenho a leve
impressão de que ele parecia estar vendo “por um cristal”.
Eduardo
Cunha dispensa apresentações: citado em inúmeros inquéritos, acusado de
envolvimento na Lava Jato e ainda presidente da Câmara, com trânsito livre no
meio político, achincalha as instituições republicanas diariamente. A gestão à
frente da Câmara, com pouco mais de quatro meses acumula polêmicas, retirada de
direitos dos trabalhadores e propostas absurdas que prejudicam a laicização do
Estado, ao mesmo tempo em que propõe o aparelhamento deste com o que há de mais
retrógrado na nossa história: de Bolsonaros a Felicianos, Cunha é o baluarte e
“regaço acolhedor” do conservadorismo e do atraso do nosso país.
Parafraseando
Joaquim Barbosa, de trágica passagem pelo Judiciário, diria eu a Mendes e
Cunha: “A República não pertence às greis de Vossas Excelências...” Mas eles
vivem como se pertencesse.


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